1. À PRIMEIRA VISTA
O SOL QUENTE DE PHOENIX INCIDIA EM CHEIO SOBRE a janela do carro de onde meu braço nu e pálido pendia sem pudor. Minha mãe e eu estávamos indo para o aeroporto, mas somente eu tinha uma passagem à minha espera, e esta era só de ida.
Eu tinha no rosto uma expressão de desânimo, de ressentimento, e podia dizer a partir do reflexo no vidro da janela que era também uma expressão intrigante. Mas parecia fora de lugar, vinda de uma garota num top rendado sem mangas e num jeans boca de sino (com estrelas nos bolsos traseiros). Mas eu era esse tipo de garota – deslocada. Então saí daquele lugar sob o para-brisa para uma posição normal no assento. Muito melhor.
Eu estava me autoexilando da casa de minha mãe em Phoenix para a de meu pai em Switchblade1. Como um exílio autoexilado, eu conheceria a dor da diáspora e o prazer de impô-la, insensivelmente indiferente aos meus próprios apelos para dizer o último adeus ao vaso de fungos que estava cultivando. Tinha que calejar a pele, já que ia ser uma refugiada em Switchblade, uma cidade no noroeste do Oregon que ninguém conhecia. Não tente procurá-la no mapa – ela não é importante o suficiente para preocupar os cartógrafos. E nem mesmo pense em me procurar nesse mapa – aparentemente, também não sou importante o suficiente.
– Belle – minha mãe fez bico de choro no terminal. Senti uma pontada de culpa, deixando-a sozinha naquele aeroporto enorme e hostil. Mas, como o pediatra havia dito, não podia deixar que a ansiedade por conta da separação dela me impedisse de sair de casa por oito anos ou mais. Caí de joelhos e segurei as mãos dela.
– Só vou ficar fora até terminar o ensino médio, o.k.? Você vai ter bastante diversão com Bill, certo Bill?
Bill disse sim com a cabeça. Ele era meu novo padrasto e a única pessoa disponível para tomar conta dela enquanto eu estivesse fora. Não posso dizer que eu confiava nele, mas era mais barato que uma baby-sitter.
Endireitei-me e cruzei os braços. Já era tempo de acabar com o melodrama.
– Os números de emergência estão em cima do telefone na cozinha – eu disse. – Se ela se machucar, pule os dois primeiros: são o celular dela e o telefone da pizzaria Domino’s. Deixei preparadas refeições suficientes para durar um mês para os dois, se dividirem um terço de uma lasanha Stouffer por dia. Minha mãe sorriu ao pensar na lasanha.
– Você não tem que ir, Belle – disse Bill. – Eu sei, meu time de hóquei de rua vai participar de um torneio, mas só em torno da vizinhança. Existe muito espaço no carro para você, sua mãe e eu vivermos.
– Grande coisa. Eu quero ir. Quero trocar todos os meus amigos e a luz do sol por uma pequena cidade chuvosa. Fazer vocês felizes me faz feliz.
– Por favor, fique. Quem pagará as contas quando você partir?
Eu podia escutar o número do meu voo sendo chamado.
– Cara, aposto que Bill pode correr mais rápido que a mamãe para o Jamba Juice!
– Eu sou mais rápida! – minha mãe gritou. Enquanto eles saíam correndo, Bill puxou-a pela camisa para passar à frente. Vagarosamente recuei para dentro do portão de embarque e atravessei a ponte até o avião. Nenhum de nós era muito bom em dizer adeus. Por alguma razão, sempre terminávamos com meias palavras.
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